quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Diário da Visita de Estudo à Baixa Pessoana


Uffa... Foi cansativo, bom, mas acabou...
Aprendi muito hoje, conheci a fundo a Baixa Pessoana com a ajuda dos meus colegas e professores que nos guiaram.
Achei fantástico todo o percurso que fizemos mas a parte mais bonita que achei foi sem sombra de dúvida as ruínas do Convento do Carmo e o acesso ao Elevador de Santa Justa, talvez por ainda não estar cansada, ou então por ser realmente uma paisagem bonita de se ver, ainda melhor porque relembrei uns anos anteriores em que passeei por aquele sítio ainda ser perceber a importância do mesmo, foi crescer dentro de minutos com imensa sabedoria. Foi bom também a oportunidade maravilhosa de fotografar Lisboa ao fim de tarde com figurinos bastante carismáticos que participam do meu dia-a-dia.
Sei que estou muito mas muito cansada e com perspectiva de o dia de amanhã não ser melhor, desfile de Carnaval da António Arroio é andar sem parar, mas também com os avisos que já tínhamos que iriam ser cinco, sim cinco, quilómetros a andar não era de esperar que psicologicamente não estivesse preparada, só para terem noção vou fazer um pequeno resumo:
Começamos pela pequena grande Rua da Betesga onde Fernando Pessoa tinha uma das suas muitas firmas, fomos ao Rossio, mesmo ao lado, bisbilhotamos o café Nicola e fomos
à Rua do Arco da Bandeira onde tivemos acesso a um café de nome A Licorista onde pudemos ver um painel onde é retratado Pessoa e a sua célebre frase, Apanhado em flagrante delitro, voltamos de novo ao Rossio onde entramos, para matar a curiosidade, na Tabacaria Mónaco, também frequentada por F. Pessoa, bastante escura por dentro e com muitos passarinhos a decorá-la e ladeada por duas rãs, assim a posso caracterizar. Paramos na frente da Estação do Rossio para termos a mínima noção da paixão de F. Pessoa por Ofélia que morava num prédio em frente a um café, actualmente C.G.D., onde Pessoa passava as tardes a admirá-la. Não tardou a entrarmos na Estação viu-mos uns painéis e discutimos um pouco o conceito de beleza de todos os painéis.
Saímos da Estação e fomos até um restaurante onde também tiveram a gentileza de nos deixar entrar, O Leão D' Ouro onde também vimos um quadro em que estavam representados F. Pessoa e os seus contemporâneos. Depois após uns passitos mais longos, vimos da Rua do Carmo, parte das ruínas do convento do Carmo, subimos a rua e paramos em frente aos novos Armazéns do Chiado. Seguimos pela Rua Garret e viramos na primeira rua à direita, que eu não tenho a certeza do nome, Rua da Condessa talvez?! Sei que fomos dar ao lado do Museu Arqueológico do Carmo, correctamente o chamando, e que entramos numa arcada ao lado e depois foi a parte mais bonita da visita que já falei à pouco, quando voltamos estivemos um pouco parados no Largo do Carmo, com uns colegas a explicar a vida de F. Pessoa nesse local. Uns largos passos depois subindo a rua em direcção ao Teatro da Tridande onde virámos à esquerda e descemos até à Igreja dos Mártires. Uns colegas fizeram a sua explicação do espaço e depois fizemos uma pausa bem merecida, para lanchar. Após um ligeiro atraso dos professores voltámos ao nosso longo percurso. Dirigimo-nos até à famosa Brasileira, onde também fomos fazer uma cusquice das muitas obras contemporâneas de Pessoa que lá moram. Depois de mais uma descida, a parte mais fácil do percurso, vimos o prédio onde F. Pessoa havia nascido, mesmo no Largo de S. Carlos. Mais uma descida, não nos podemos queixar, e fomos ao Largo da Faculdade de Belas Artes, onde tentamos uma pequena invasão ao miradouro em frente, o que se tornou impossível graças à segurança privada que agora lá existe. Mais percurso a descer, para baixo todos os santos ajudam, e chegámos à Rua do Ouro, onde pelo adiantar da hora foram muitos os colegas, incluindo eu, que deram a sua contribuição. Seguimos para o Martinho da Arcada onde tiveram a gentileza de nos deixar entrar e mirar todo aquele ambiente rodeado pela viva alma de F. Pessoa. As últimas paragens, bolas já nem me lembro, sei que fomos a um jardim no Terreiro do Paço, onde não nos queriam deixar entrar, por já ser um pouco tarde e que depois paramos em mais duas ou três ruas as quais já não assentei o nome, mas é que o cansaço já era pesado. Nessas ruas os poucos e últimos colegas resistentes descreveram também o espaço e ligaram-no à vida de F. Pessoa.

E por fim a última e derradeira corrida para o metro. Pareceu que nunca mais chegava a casa e tomava o merecido banho e merecido jantar. Agora estou aqui a escrever já quase sem força nos olhos e nos dedos.

Uffa... Foi cansativo, bom, mas acabou...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um elemento, muitos significados

O fogo consume, aquece, ilumina, mas também pode trazer morte e dor; e por isso seu simbolismo pode variar muito dependendo do contexto em que ele é usado. Ele é muito usado como um símbolo de inspiração como também é um símbolo predominante do inferno. O fogo é um dos quatro elementos que o ser humano pode produzir, fazendo uma conexão entre os mortais e os Deuses. A maioria dos rituais envolvem uma chama eterna, e acender um fogo é equiparado com o nascimento e ressurreição. Pode ainda representar iluminação espiritual, sexualidade e fertilidade.

Fogo pode ainda ser visto como uma força de purificação (Cooper, 1978). Em um contexto mais moderno, um fogo na floresta, que pode ser destrutivo e dispendioso pode ser ecologicamente correcto como um modo de purificação onde todo um ecossistema é rejuvenescido.

O fogo também é visto pelos cristãos, chineses e Hebreus como um símbolo de divindade (Cooper, 1978). No Cristianismo, o fogo pode ser simbólico para zelo e martírio. No Egipto, representa um sentido de superioridade e controle. Em muitas outras culturas, o fogo é visto como um símbolo para sabedoria e conhecimento.

Freud via o fogo como um aspecto da libido (impulso sexual) representando paixões proibidas.

Ele destrói, limpa, purifica. Significa o surgimento da paixão e sexualidade. Para Jung ele representava transformação, pois ele é o grande agente das transformações pelo seu carácter de simbolizar as emoções, tanto que aquilo que resiste ao fogo tem o carácter da imortalidade. Sem o fogo da emoção nenhum desenvolvimento ocorre e nenhuma conscientização maior pode ser alcançada, ele é considerado um símbolo da consciência e no Êxodo, as tribos comandadas por Moisés foram guiadas por uma coluna de fogo durante a noite que foi denominada de Tocha Ardente, é um tipo de libido, consciente e criativa. Existe uma tendência geral de se estabelecer um paralelo entre a produção de fogo e a sexualidade, tanto que ele pode estar representando o inferno resultante da vivência da Paixão. O pramantha como instrumento do Manthana (o sacrifício de fogo) entre os hindus, tem um significado sexual; o pramantha representa o falo ou o homem e o pau furado colocado em baixo é a vulva ou a mulher, sendo que o fogo gerado é a criança, o filho divino AGNI. No culto, os dois paus chamam-se pururûvas e urçavi e são símbolos do homem e da mulher; do órgão genital da mulher nasce o fogo da sexualidade que é um dos conteúdos psíquicos de maior carga afectiva. Na alquimia, o fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor que actua sobre a matéria negra, símbolo da nigredo, tornando-a branca., a albedo.

Dentro do simbolismo alquímico, ele também era uma imagem da participação do indivíduo no trabalho pois para que a transformação se processasse era preciso atenção ao fogo que deveria sempre manter-se aceso. O que é purificado pelo fogo, torna-se de forma bastante literal, sagrado, e quando uma criatura "espiritual" é queimada a cremação lhe confere o corpo, posto que esse elemento era considerado o veículo conector entre os reinos divino e humano, a própria inspiração através do espírito. Existe também em relação ao fogo a imagem que simboliza o grande destruidor, como pode inclusive ser visto em vários mitos posto que ele tanto pode nos queimar como nos iluminar. Nos tempos primitivos era o principal método de sacrifício aos deuses. Os sonhos em que cidades são queimadas ou ainda, que nossa própria casa é queimada, costumam indicar que um afecto nos possuiu e tornou-se completamente fora de controlo. Ele mostra a intensidade da tonalidade afectiva e por isso é uma expressão da energia psíquica que se manifesta como libido.

É um princípio criador por excelência, símbolo da energia vital, da purificação, da espiritualidade, do entusiasmo e do ardor. Sonhar com o fogo de uma lareira ou com uma fogueira no meio de um campo indica uma necessidade de acção, de levar a cabo de forma imediata o que se está projectando. Se esse fogo te envolve, significa que você está desperdiçando uma grande quantidade de energia ou que está utilizando esta energia de forma errada. Se trataria de um erro por excesso, por culpa de uma ambição desproporcional ou de um entusiasmo que não corresponde à realidade e que você deveria guardar isto para outros empreendimentos.

Com certeza, você precisa serenar e medir a extensão de seus actos. Se o fogo queima um bosque ou um edifício, é um indício de que algo está ameaçando destruir sua integridade. Você não está deixando ninguém lhe aconselhar e, desse jeito, as coisas chegam a um limite perigoso. Sonhar com fogo é logicamente uma advertência para que você desenvolva a paciência e cultive a objectividade, que não é o seu forte.

A maior parte dos aspectos do simbolismo do fogo está resumida na doutrina hindu, que lhe confere fundamental importância.

O aspecto destruidor do fogo implica também, evidentemente, um lado negativo; e o domínio do fogo é igualmente uma função diabólica. A propósito da forja, deve-se observar que seu fogo é a um só tempo celeste e subterrâneo, instrumento de demiurgo e de demónio. A queda de nível é representada por Lúcifer, portador da luz celeste, no momento em que é precipitado nas chamas do inferno: fogo que queima sem consumir, embora exclua para sempre a possibilidade de regeneração.

O fogo, na qualidade de elemento que queima e consome, é também símbolo de purificação e de regenerescência. Reencontra-se, pois, o aspecto positivo da destruição: nova inversão do símbolo. Todavia, a água é também purificadora e regeneradora. Mas o fogo distingue-se da água porquanto ele simboliza a purificação pela compreensão, até a mais espiritual de suas formas, pela luz e pela verdade; ao passo que a água simboliza a purificação do desejo, até a mais sublime de suas formas — a bondade.

Por: Sérgio Pereira Alves

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Relatório da aula do dia 12 de Fevereiro de 2009

A aula do dia 12 de Fevereiro de 2009 iniciou-se com a entrega da folha de preenchimento para a visita de estudo à Lisboa Pessoana e com esclarecimentos sobre a mesma.
Prosseguiu-se a aula com a leitura de um conto do livro Exercícios de Estilo de QUENEAU, Raymond, Ed. Colibri, Lisboa 2000, intitulado, após alguns palpites dos alunos, Desajeitado, e com a leitura de um outro excerto do livro, Cadernos de Lanzarote de José Saramago, a terceira página do dia 6 de Março.
Após a pequena revisão sobre a matéria das aulas anteriores, realizou-se a leitura de textos sobre o Epicurismo - que consiste em gozar o presente e o Estoicismo – que consiste na aceitação da condição humana, através da disciplina e da razão, doutrinas que Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, idolatrava (página 198).
Sobre o texto do Epicurismo podemos dizer que era a faceta de Ricardo Reis que vivia de acordo com o desfruto do prazer, mas com moderação, sendo que a outra faceta vivia segundo a razão, usando-a para não recriminar e uma serena aceitação, logo de acordo com a outra doutrina, o Estoicismo. Com a oportunidade de leitura destes textos seguiram-se os significados de alguns conceitos entre eles: Dogma – uma verdade inquestionável e Rebelarem – revoltarem.
A leitura de um outro texto sobre Ricardo Reis – o poeta da auto-disciplina (página 195) que nos elucidou, mais uma vez, sobre a forma como Fernando Pessoa criava os seus heterónimos dando-lhes uma total e completa personalidade e também onde F. Pessoa nos “apresentava” o mais recente heterónimo.
Para terminar a aula fizemos uma leitura dramatizada de um excerto de um texto (página 202) de José Saramago, O ano da Morte de Ricardo Reis.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Um balanço intermédio, uma organização de trabalho...

Ao longo deste mês de trabalho, e apesar de ainda não ter tido a oportunidade de estudar completamente e intensamente o Felizmente Há Luar! tenho tido uma boa impressão da obra e do elemento que nela é retratado, o fogo.
Tudo o que foi realizado até agora foi, alguma pesquisa sobre a simbologia do fogo e da fogueira, uma primeira análise da obra e um texto pessoal, um diário, em graça aos heterónimos de Fernando Pessoa.
Tenciono continuar a apostar na pesquisa da simbologia do fogo, da fogueira, e em alguns elementos que irei agora introduzir, a lua, a noite, a luz, e os tambores também muito anunciados no texto de Sttau Monteiro.
Com a oportunidade, de ainda referir Pessoa, que agora estudamos, irei realizar mais textos pessoais sobre esse fantástico poeta, e introduzir uns excertos em que o poeta se refere ao fogo.
Mais tarde, numa especie de conclusão um resumo sobre a obra Felizmente Há Luar! e o elemento que escolhi.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fogo no Felizmente Há Luar!


Numa primeira análise da peça de Luís Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!, o Fogo pode ser interpretado de várias maneiras.
Sendo que os supostos conspiradores são condenados à morte na fogueira, significa que os que condenavam queriam destruir o que julgavam ser “mau”, para que renascesse a força do “bem”, e a determinação que conduzia o povo à liberdade. Também poderemos entender que ao invés da destruição, dado que o fogo terá uma vertente purificadora, que os mesmos eram condenados para purificarem a alma.
Quando analisamos algumas frases de alguns personagens, por exemplo as palavras de Matilde: “Aquela fogueira há-de incendiar toda a terra”, podemos verificar que isso mesmo se verificou pois todos os que na realidade foram queimados, levaram a uma rebelião que conduziu ao triunfo do liberalismo de 1820. Assim, as palavras de Matilde apesar de serem realidade, também explicam a ligação da fogueira do Felizmente Há Luar! com a liberdade da terra que Matilde falava.

Sonhar com o fogo

Pierre RealDos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos SonhosLisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967Excertos adaptados

Dos sonhos aos símbolos

O fogo tem sido sempre objecto de um verdadeiro culto. Na Antiguidade, o fogo era sinónimo de vida, de luz, de força e de amor… Aliás, o fogo encontra-se ligado aos sentimentos amorosos… Não se diz vulgarmente: uma paixão ardente… o coração em brasa… consumido de amor…a chama do amor?
Em sânscrito, a palavra tejas significa simultaneamente fogo, luz, força espiritual e esperma viril.
Se sonham com fogo, os sonhadores estão junto de grandes fontes de energia física. Nos sonhos surgem então chamas claras ou sombrias, forjas com ferro em brasa, altos-fornos gigantescos, etc.
O fogo permite transformar a matéria, por fusão. Além disso, é considerado um elemento purificador. Se no vosso sonho entra o fogo, podem estar certos de que esse sonho é cheio de significado. Procurarão, então, desembaraçar-se das vossas impurezas morais e das futilidades, a menos que o vosso sonho vos previna de que, inconscientemente, nasceram em vós novos sentimentos e ideais ardentes e puros.
O fogo, nos sonhos, é símbolo de luz, de purificação, de energia ou de sexualidade (tal como o sol! Os antigos, aliás, chamavam ao fogo «filho do sol»).
Eis um exemplo:
Encontro-me numa planície imensa, obscura… no meio da qual brilha um fogo claro, magnífico… Aproximo-me, com um receio misturado de um grande respeito. O braseiro torna-se cada vez mais claro e vivo, ouvindo-se o crepitar das chamas. Sem qualquer hesitação, entro nessas chamas, que me lambem, não me queimam. Caminho sobre o fogo e saio das chamas. À minha frente, ergue se uma coluna luminosa que sobe no céu, tendo no seu cume um outro fogo em forma de sol…
Eis um belo sonho, cheio de grande energia psíquica. Trata-se aqui de um jovem tímido, apagado, mas cuja alma estava «repleta de fogo» e sequiosa de beleza. Este sonho revelou-lhe inconscientemente muitas coisas: deu-lhe a certeza interior do que necessitava. E notem bem isto: saindo do fogo, viu uma coluna que subia no espaço em direcção a um sol. Eis outros dois grandes símbolos que mostram bem o carácter construtivo do seu sonho.
No entanto, o fogo mostra, em certos sonhos, numerosas deformações, a mais corrente das quais é o INCÊNDIO.
Se sonharem com incêndios, trata-se de um fogo que destrói, e o sonho tem o significado de um perigo interior que vos ameaça. Acendeu-se um fogo num recanto da vossa alma, que foi captado pelo vosso inconsciente, mas que sois incapazes de detectar quando em estado de vigília. Torna-se, por isso, necessário procurar a destruição que em vós se começa a operar e, portanto, deve fazer-se uma análise dos sentimentos inconscientes.
Tratar-se-á de uma paixão «ardente» e destruidora? De um esgotamento que põe em perigo os vossos nervos? De uma transformação nociva no ritmo dos vossos instintos? Só um profundo exame permite desvendar estes casos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Uma viagem no mundo de Fogo...

Fazia parte dos meus planos um dia conhecer o mundo de Fogo, julgava eu, até ao dia em que conheci! Tudo começou quando entrei pela porta que rapidamente se fechou, comecei logo por me sentir desamparada, sozinha... Eram-me desconhecidas muitas das caras que via, uma ou outra talvez ja tivessem cruzados olhares comigo mas não sei onde nem quando, reconheci uma ou duas, ambas amigáveis e simpáticas. Fiquei perto delas, e olhava desconfiada e friamente para as outras. Não fiz nenhum tipo de julgamento dos donos dessas caras pois queria e tentava ser distante deles, o que mais tarde se tornou impossível em certos casos. Não era a única que me sentia assim, ansiosa, sei que das outras duas caras que eu conhecia já há algum tempo estavam na mesma situação, afinal eram novas, também no meio daqueles curiosos olhares que questionavam quem nós eramos e porque estavamos ali. Passou-se o tempo entre "cochichos" e perguntas e pareceu-me que estava mais à vontade a meio do dia, então no dia seguinte muito mais confortável, tentando adaptar-me ao ambiente. Inevitável, posso dizer, foi não desenvolver nenhum tipo de relacionamento com gente simpática que encontrei pelo meu caminho. Gente com personalidade e que espera sempre alcançar novos desafios, caras desconhecidas, agora talvez não, que lutam com garra pelo que querem, donos dessas caras que sobrevivem no mundo de fogo...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Cartoon

"Atlas"

Por vivermos num país e até num mundo de fogo, esta semana passei uma boa meia hora a rir com os cartoons de um grande artista, há que elogiá-lo e muito, trabalha na maldade de uns, mas para gosto dos outros. Henrique Monteiro é um cartonista que apresenta os seus trabalhos no seu próprio blog: http://henricartoon.blogs.sapo.pt/ ou até à data de Setembro de 2008 (sendo alguns repetidos do primeiro link) em http://henricartoon.blogspot.com/. É bastante interessante a forma como ele desenha mas também a forma como pensa e consegue transmitir isso e muito bem no papel.
O artista aceita cartoons por encomenda que julgo serem feitas através de contacto para henmonteiro@gmail.com, alguns exemplos dessas encomendas estão em http://caricaturasencomendadas.blogs.sapo.pt/.
Deixo uma dica, passem lá é bastante bom!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um diário...

Diário de 15 de Janeiro de 2009 Aula de Português

Talvez o tempo lá fora não ajudasse, talvez o cansaço do chegar ao final da semana, nem as boas notícias de marcações de visitas de estudo me permitiam estar atenta. Estou a referir-me a mim, mas a professora reparou que também a turma não estava presente.
Sei que aula foi após o almoço, sei que chovia e estava nublado lá fora, sei que temos algum trabalho para o fim desta semana e talvez por isso me faltasse concentração e motivação.
Queria participar, queria falar mas parecia que o meu cérebro não desenvolvia, conseguia tirar apontamentos, conseguia estar sozinha comigo mesma, partilhar verbalmente as minhas ideias ou as minhas opiniões era impossível, só dava para partilhar o conteúdo da aula com o caderno.
Via depois colegas a tirar apontamentos, a desenhar e outros a participar na aula, mas quando a professora perguntava algo mais complicado parecia que o cérebro da turma desligava, e só após algum tempo é que começava a aquecer.
Pensando nos cérebros preguiçosos como um carro, à maneira de Álvaro de Campos, hoje estavam estacionados, a professora procurava dar à chave, mas só de vez em quando o motor pegava.
Outra hipótese, como Alberto Caeiro pensaria, os mesmos crânios poderiam ser comparados a um rebanho que a professora conduzia, mas que pouco se queriam mexer.
Já como Ricardo Reis diria, estavam esses belos cérebros sentindo dor sem ao mesmo tempo a sentir.
Sem dúvida que apesar da pouca participação que hoje tive na aula, pude compará-la e muito com os heterónimos de Fernando Pessoa que agora estudamos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Significado do Fogo


Grande Dicionário da Lingua Portuguesa, Grande Biblioteca Multilingue, 2002, Volume III:

Fogo, s. m. Desenvolvimento simultâneo de calor e luz produzido pela combustão de certos corpos. Fogão, chaminé, lareira. Lar, Casa, sede de uma família. Fogueira para servir de sinal. Farol que se acende para guiar navegantes. Calor excessivo, vivacidade, energia. Fogagem. Agitação, sentimento veemente. O suplício da fogueira. Clarão intenso. tiros de fuzilaria, artilharia ou quaisquer armas de fogo. Fig. Combate, acção bélica. Brincar com o fogo, queimar-se lidando sem cautela com o fogo. Arriscar-se, imprudentemente em qualquer empreendimento. Lançar, deitar, largar, pôr, pegar, prender fogo, provocá-lo, ateá-lo. Pontas de fogo, aplicação de objecto pontiagudo em brasa em certos pontos da pele. Pôr as mãos no fogo por, grantir a virtude, a honestidade de. Interj. Voz de execução para descarregar armas.

(...)

Fogueira, s. f. Porção de lenha ou de outro combustivel a arder. Incandescência, exaltação, ardor. Festas populares que se costumavam fazer fogachos nas vésperas de S. João, S. Pedro, Sto. António e outros santos. Monte de lenha em chamas, em denados ao suplíco do fogo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Rita Lee canta Perto do Fogo



Perto do fogo
Como faziam os hippies


Perto do fogo
Como na Idade Média
Quero queimar minha erva
Eu quero estar perto do fogo

Perto do fogo
Quando tudo explodir
Mas não vai explodir nada
Vão ficar os homens se olhando
E dizendo: O momento está chegando

Perto do fogo, meu amor

Perto do fogo
Eu queria ficar perto do fogo
No umbigo do furacão
E no peito um gavião
No coração da cidade
Defendendo a liberdade
Eu quero ser uma flor
Nos teus cabelos de fogo
Quero estar perto do poder

Eu quero estar perto do fogo

Perto do fogo, meu amor...

O Fogo e o Felizmente Há Luar!


Novo ano, novo elemento, nova obra. Uma nova oportunidade de descrever novos sentimentos, emoções e sensações.

Apresento um novo elemento que acho que se identifica com a obra que também escolhi, Felizmente Há Luar!, o Fogo! O oposto do anteriormente escolhido elemento, a Água, que não identifiquei em nada com a peça que estudo.

O novo texto dramático que coloco em estudo trata a injustiça e a repressão política levada a cabo pelo Estado Novo, foi publicado em 1961 e censurado durantes muitos anos, sendo apenas levado aos palcos pela primeira vez em 1978, no Teatro Nacional, encenado pelo próprio autor, Luís de Sttau Monteiro, homem dos palcos, como o mesmo afirma, que não se deixa envolver pelos textos, mas pelo espectáculo e por quem o realiza e assiste:

Eu sou um homem de teatro concreto, real, de palco. Para mim o teatro surge quando está no palco, quando estabelece uma relação social, concreta num povo e num grupo. o livro meramente, ou o texto, tem para mim muito pouco significado, apesar de eu ser um autor teatral. (...) Se vocês são o teatro do futuro, eu sou o do passado. eu sou um homem para quem só conta o espectáculo.
Le theátre sous la contrainte, actas do Colóquio internacional realizado em Dezembro de 1985.

domingo, 23 de novembro de 2008

Um trabalho especial a terminar...


Especial porque tive a oportunidade de trabalhar e perceber o quanto é essencial este elemento. Despertei para a realidade do mundo, a Água é esgotável, e por isso mesmo, de um ponto de vista ecológico há que poupá-la.

Para que este blog tivesse uma organização equilibrada decidi dividi-lo por três fases, em que na primeira analisei a epopeia de Luís de Camões, Os Lusíadas, na segunda fase escolhi um conto de um autor que temos acompanhado na disciplina de português, na terceira e última fase, pesquisei acerca da simbologia da Água.

Tratando ao pormenor e ainda por terminar, a primeira fase do trabalho foi retirar dos cantos que estudámos, d' Os Lusíadas, todas as palavras que podemos relacionar com a Água.

A segunda fase, mais pessoal, foi a escolha do conto O Apelo da Água, de Italo Calvino. A escolha deste conto baseou-se na minha admiração ao ouvi-lo, já que apesar de nos terem sido lidos muitos outros contos, este é aquele conto que todas as manhãs ao abrir a torneira para fazer passar a Água por todos os mecanismos que o autor nos retratou com tantos pormenores, sempre recordo.

A terceira fase foi um pesquisa sobre a simbologia da Água, em várias vertentes. Pesquisa essa que me ensinou muito sobre outras culturas e sobre outras religiões onde a Água e bastante importante.

Sei que apesar da avaliação terminar aqui, vou continuar a pesquisar sobre outras palavras contextualizadas com a Água n' Os Lusíadas, procurar outros contos que me surpreendam tanto como O Apelo da Água, e outras simbologias que o elemento poderoso chamado Água pode ter.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Simbologia da Água


Água
Verbete extraído do Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Ed. j. Olympio

As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Esses três temas se encontram nas mais antigas tradições e formam as mais variadas combinações imaginárias - e as mais coerentes também.

As águas, massa indiferenciada, representando a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, todo o informal, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção. Mergulhar nas águas, para delas sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens, carregar-se de novo num imenso reservatório de energia e nele beber uma força nova: fase passageira de regressão e desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração e regenerescência.

As variações das diferentes culturas sobre os temas essenciais nos ajudarão a melhor apreender e aprofundar, sobre um fundo quase idêntico, as dimensões e os matizes dessa simbologia da água.

Na Ásia, a água é a forma substancial da manifestação, a origem da vida e o elemento da regeneração corporal e espiritual, o símbolo da fertilidade, da pureza, da sabedoria, da graça e da virtude. Fluida, sua tendência é a dissolução; mas, homogênea também, ela é igualmente o símbolo da coesão, da coagulação. Como tal, poderia corresponder à sattva; mas, como escorre para baixo, para o abismo, sua tendência é tamas; como se estende na horizontal, sua tendência é ainda rajas.

Origem e veículo de toda vida: a seiva é água, e em certas alegorias tântricas, a água representa prana, o sopro vital. No plano corporal, e por ser também um Dom do céu, ela é um símbolo universal de fertilidade e fecundidade. A água do céu faz o arrozal, dizem os montanheses do sul do Vietnã, sensíveis, também cumpre dizê-lo à função regeneradora da água, que consideram medicamento e poção de imortalidade.

Da mesma forma, a água é o instrumento da purificação ritual. Do Islã ao Japão, passando pelos ritos dos antigos fu-chuel taoístas (senhores da água benta), sem esquecer a aspersão dos cristãos, a ablução tem papel essencial. Na índia e no Sudeste Asiático, a ablução das estátuas santas - e dos fiéis - (sobretudo no Ano-Bom) é, ao mesmo tempo, purificação e regeneração. A natureza da água leva-a à pureza, escreve Wan-tse. Ela é, ensina Lao-tse, o emblema da suprema Virtude (Tao,cap.8). É, ainda, o símbolo da sabedoria taoísta, porque não tem contestações. É livre e desimpedida, corre segundo o declive do terreno. É a medida, pois que o vinho forte demais deve ser misturado com água, mesmo em se tratando do vinho do conhecimento.

A água, oposta ao fogo, é
yin. Corresponde ao norte, ao frio, ao solstício do inverno, aos rins, à cor negra, ao trigrama K'an, que é o abissal. Mas, de outro modo, a água está ligada ao raio, que é fogo. Ora, se a redução à Água dos alquimistas chineses pode ser muito bem considerada como uma volta ao começo, ao estado embrionário, diz-se também que essa água é fogo, e que as abluções herméticas devem ser entendidas como purificações pelo fogo. Na alquimia interna dos chineses, o banho e a lavagem poderiam bem ser operações de natureza ígnea. O mercúrio alquímico, que é água, é às vezes qualificado como água ígnea.
Observemos, ainda, que a água ritual das iniciações tibetanas é o símbolo de votos, dos compromissos assumidos pelo postulante. A água, como, aliás, todos os símbolos, pode ser encarada em dois planos rigorosamente opostos, embora de nenhum modo irredutíveis, e essa ambivalência se situa em todos os níveis.
A água é fonte de vida e fonte de morte, criadora e destruidora.

Na Bíblia, os poços no deserto, as fontes que se oferecem aos nômades são outros tantos lugares de alegria e encantamento. Junto das fontes e dos poços operam-se os encontros essenciais. Como lugares sagrados, os pontos de água têm papel incomparável. Perto deles, nasce o amor e os casamentos principiam. A marcha dos hebreus e a caminhada de todo homem na sua peregrinação terrena estão intimamente ligadas ao contacto exterior ou interior com a água. Esta se torna, então, um
centro de paz e de luz, oásis. A Palestina é uma terra de torrentes e de fontes. Jerusalém é regada pelas águas tranquilas de Siloé. Os rios são agentes de fertilização de origem divina, as chuvas* e o orvalho trazem consigo a fecundação e manifestam a benevolência divina. Sem água, o nômade seria imediatamente condenado à morte e crestado pelo sol da Palestina. Assim, a água que ele encontra no caminho é comparável ao maná celeste: desalterando-o, ela o alimenta. É por isso que se reza pedindo água, pois é ela objeto de súplica. Que Deus escute o grito do seu servo, que lhe envie os seus aguaceiros, que faça encontrar os poços e as fontes. A hospitalidade exige que se apresente água fresca ao visitante, que seus pés sejam lavados, a fim de assegurar a paz do seu repouso. Todo o Antigo Testamento celebra a magnificência da água. O Novo receberá esse legado e saberá utilizá-lo. É muito natural que os orientais tenham visto, assim, a água, primeiro como um sinal e um símbolo de bênção: pois não é ela que permite a vida?

A água se torna o símbolo da
vida espiritual e do Espírito, oferecidos por Deus e muitas vezes recusados pelos homens. A água viva, a água da vida se apresenta como um símbolo cosmogônico. E porque ela cura, purifica e rejuvenesce, conduz ao eterno.
Segundo Gregório de Nissa, os poços conservam uma água estagnada.
Mas o poço do Esposo é um poço de águas vivas. Ele tem a profundeza da cisterna e a mobilidade do rio, o que não deixa de ter relação com o texto de Lorca citado acima.

A água, possuidora de uma virtude lustral, exercerá ademais um poder soteriológico. A imersão nela é regeneradora, opera um renascimento, no sentido já mencionado, por ser ela, ao mesmo tempo, morte e vida.
A água apaga a história, pois restabelece o ser num estado novo. A imersão é comparável à deposição do Cristo no santo sepulcro: ele ressuscita, depois dessa descida nas entranhas da terra. A água é símbolo de regeneração: a água batismal conduz explicitamente a um novo nascimento , é iniciadora. O pastor de Hermas fala daqueles que
desceram à água mortos e dela subiram vivos. É o simbolismo da água viva, da fonte de juventa. O que tenho em mim, diz Inácio de Teóforo (segundo Calisto), é a água que opera e fala. Sabe-se que a água da fonte de Castália, em Delfos, inspirava a Pítia. A água da vida é a Graça divina. Os cultos são deliberadamente concentrados em torno das nascentes de água. Todo lugar de peregrinação comporta seu olho d'água, sua fonte. A água pode curar em razão das suas virtudes específicas. No curso dos séculos, a Igreja se levantou muitas vezes contra o culto prestado às águas.

A devoção popular considerou sempre o valor sagrado e sacralizante das águas. Mas os desvios pagãos e a volta das superstições constituíam, sempre uma ameaça. A magia espreita o sagrado para pervertê-lo na imaginação dos homens. Se as águas precedem a criação, é evidente que elas continuam presentes para a recriação. Ao homem novo corresponde a aparição de um outro mundo. Em certos casos, e já o dissemos no começo deste verbete, a água pode fazer obra de morte.
As grandes águas anunciam, na Bíblia, as provações. O desencadeamento das águas é o símbolo das grandes calamidades.

Símbolo da dualidade do alto e do baixo: água de chuva – água do mar. A primeira é pura; a segunda, salgada. Símbolo de vida:
pura, ela é criadora e purificadora, amarga, ela produz e maldição. Os rios podem ser correntes benéficas ou dar abrigo a monstros. As águas agitadas significam o mal, a desordem.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Apelo da Água de Italo Calvino


Avanço o braço para o duche, pouso a mão no manípulo e movo-o lentamente fazendo-o rodar para a esquerda.
Acabei de acordar, tenho os olhos ainda cheios de sono, mas estou perfeitamente consciente de que o gesto que faço para inaugurar o meu dia é um acto decisivo e solene, que me põe em contacto com a cultura e a natureza ao mesmo tempo, com milénios de civilização humana e com acção das eras geológicas que deram forma ao planeta. O que peço ao duche é em primeiro lugar que confirme como senhor da água, como pertencente à parte da humanidade que herdou dos esforços de gerações a prerrogativa de chamar a si a água como simples rotação de uma torneira, como detentor do privilégio de viver num século e num lugar em que se pode gozar em qualquer momento da mais generosa profusão de águas límpidas. E sei que para que este milagre se repita todos os dias se deve verificar uma série de condições complexas, pelo que a abertura de uma torneira não pode ser um gesto distraído e automático, mas exige uma concentração, uma participação interior.
Eis que o meu apelo a água sobe pelas canalizações, faz pressão nos sifões, levanta e baixa as bóias que regulam o afluxo nas tinas, assim que uma diferença de pressão a atrai ela acorre, propaga o seu apelo através de junções, espalhando-se pela rede dos colectores, despeja e enche os depósitos, preme contra os diques das albufeiras, escorre pelos filtros dos depuradores, avança ao longo de toda a frente das condutas que a transportam para a cidade, depois de tê-la recolhido e acumulado numa fase do seu ciclo sem fim, talvez destilada pelas bocas dos glaciares descendo por íngremes torrentes, talvez aspirada pelas faldas subterrâneas, escorrendo através dos veios da rocha, descida do céu numa densa cortina de neve chuva granizo.
Enquanto com a direita regulo o misturador, estendo a esquerda aberta em concha para lançar a primeira chapada de água para os olhos e acordar definitivamente, e entretanto oiço a grande distancia as ondas transparentes e frias e subtis que afluem para mim por quilómetros e quilómetros de aqueduto através de planícies vales montanhas, oiço as ninfas das fontes que vêm ao meus encontro pelas suas liquidas vias, e daqui a pouco debaixo do duche irão envolver-me com as suas carícias filiformes.
Mas antes que uma gota assome a cada furo da roseta e se prolongue num estilicídio ainda incerto para depois logo todas juntas se incharem numa auréola de jactos vibrantes, tem de se suportara espera de todo um segundo, um segundo de incerteza em que nada me granate que o mundo contenha ainda água e não se tenha transformado num planeta seco e pulverulento como os outros corpos celestes mais próximos, ou pelo menos que haja água bastante para que eu possa recebê-la aqui na concha das minhas mãos, longe como estou de todas as albufeiras ou nascentes, no coração desta fortaleza e cimento e asfalto.
No verão passado abateu-se uma grande seca sobre a Europa do Norte, as imagens no vídeo mostravam grandes extensões de campos de árida crosta gretada, rios antes opulentos que descobriam com embaraço o seu leito em seca, bovinos que raspavam o focinho na lama procurando alívio para a secura, filas de gente com ânforas e bilhas diante uma magra fonte. Assalta-me a preocupação de que a abundância em que chapinhei até hoje seja precária e ilusória, que a água poderia tornar a ser um bem raro, transportado com esforço, lá vem o aguadeiro com o barril a tiracolo que lança o seu pregão para as janelas para que os sequiosos desçam a comprar um copo da sua preciosa mercadoria.
Se agora mesmo uma tentação de orgulho titânico me tinha aflorado ao assenhorar-me das alavancas de comando das canalizações, bastou um instante para me fazer considerar o meu delírio de omnipotência como fátuo e injustificável, e é com trepidação e humildade que espreito a chegada do borbotão que se anuncia pelo cano acima com trémito baixinho. Mas se fosse apenas uma bolha de ar que passa pelas tubagens vazias? Penso no Sahara que inexoravelmente avança todos os anos uns poucos centímetros, vejo no meio da névoa tremular a miragem verdejante de um oásis, penso nas planícies ardidas da Pérsia drenadas por canais subterrâneos para cidades de cúpulas de majolica azul, percorridas por caravanas nómadas que todos os anos descem do Cáspio ao Golfo Pérsico e acampam em negras tendas onde acocorada no chão uma mulher que segura com os dentes um véu de cor berrante deita a água para o chá de um odre de couro.
Levanto os olhos para o duche esperando que daqui a m segundo os borrifos me chovam nas pálpebras semicerradas, libertando o meu olhar ensonado que agora está explorando a roseta de chapa cromada coberta de furinhos orlados de calcário, e eis que nela me surge uma paisagem lunar cravejada de crateras calcinosas, não, são os desertos do Irão que estou a ver do avião, ponteados de pequenas crateras brancas em fila a distâncias regulares, que assinalam a viagem da água nas condutas há três mil anos em funcionamento: o «qanat» que escorrem subterrâneos por pedaços de cinquenta metros e comunicam com a superfície através destes poços a que pode descer um homem, preso por uma corda, para a manutenção da conduta. Eis que também me projecto naquelas crateras escuras, num horizonte virado do avesso desço pelos furos do duche como pelos poços dos «qanat» para a água que corre invisível com amortecido rocegar.
Uma fracção de segundo basta-me para recuperar a noção de cima e de baixo: é de cima que a água vem ter comigo, após um irregular itinerário em subida. Os percursos artificiais da água nas civilizações sedentes escorrem debaixo da terra ou à superfície, ou seja, não se diferenciam muito dos percursos naturais, enquanto em contrapartida o grande luxo das civilizações pródigas de linfa vital é o de fazer a água vencer a força da gravidade, fazê-la subir para depois tornar a cair: e eis que se multiplicam as fontes com jogos de água e repuxos, os aquedutos de altos pilares. Nas arcadas dos aquedutos romanos o imponente trabalho mural serve de apoio à leveza de um borbotão suspenso lá em cima, uma ideia que exprime um paradoxo sublime: a monumentalidade mais maciça e durável ao serviço do que é fluido e passageiro e impalpável e diáfano.
Aplico o ouvido à grade de correntes suspensas que me circunda e domina, à vibração que se prolonga pela floresta das tubagens. Sinto por cima de mim o céu do Aro Romano sulcado pelas canalizações em cima das arcadas em ligeiro declive, e ainda mais acima que as nuvens, que ao desafio com os aquedutos erguem imensas quantidades de água em corrida.
O ponto de chegada do aqueduto é sempre a cidade, a grande esponja feita para absorver e irrigar, Ninive e os seus jardins, ma e as suas terás. Uma cidade transparente escorre continuamente na espessura compacta das pedras e da cal, uma rede de fios de água rodeia os muros e as ruas. As metáforas superficiais definem a cidade como aglomerado de pedra, diamante facetado ou carvão fuliginoso, mas toda a metrópole também pode ser vista como uma grande estrutura líquida, um espaço delimitado por linhas de água verticais e horizontais, uma estratificação de lugares sujeitos a marés e inundações e ressacas, onde o género humano realiza um ideal de vida anfíbia que corresponde à sua vocação profunda.
Ou talvez seja a vocação profunda da água a que a cidades realiza: o subir, o jorrar, o escorrer de baixo para cima. É na dimensão da altura de todas as cidades se reconhecem: uma Manhattan que ergue os seus reservatório no cume dos arranha-céus, uma Toledo que durante séculos teve de tirá-la barril a barril das correntes do Tejo lá em baixo e carregá-los no dorso de mulas ate que, para delicia do melancólico Filipe II, rangendo põe em movimento «el artificio de Juanelo» e transvaza pela ribanceira acima do rio ara o Alcázar, milagre de curta duração, o conteúdo de baldes oscilantes.
E portanto eis-me pronto a receber a água não como algo que me seja devido naturalmente mas como um encontro de amor cuja liberdade e felicidade é proporcional aos obstáculos que teve de superar. Para viver em plena confidência com a água os romanos puseram no centro da sua vida pública as termas; hoje em dia para nós esta confidência é o coração da vida privada, aqui debaixo deste duche cujos regatos tantas vezes vi correr pela tua pele, náiade nereida ondina, e assim ainda te vejo aparecer e desaparecer no abanar dos esguichos, agora que a água jorra obedecendo veloz ao meu apelo.


CALVINO, Italo. O Apelo da Água in A Memória do Mundo. Teorema: Lisboa, 1995.

sábado, 15 de novembro de 2008

Os Lusíadas de Luís de Camões - Consílio dos Deuses no Olimpo

O Consílio dos Deuses, fresco de Luigi Sabatelli

19.
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que o gado de Próteu são cortadas,

21.
Deixam dos Sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto Poder, que só co pensamento
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
Ali se acharam juntos, num momento,
Os que habitam o Arcturo congelado
E os que o autro tem e as partes onde
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.

25.
Já lhe foi (bem o vistes) concedido,

Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno;
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno.
Assu que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve troféus pendentes da vitória.

28.
Prometido lhe está o Fado eterno,
Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar que vê do sol a roxa entrada.
Nas águas tem passado o duro Inverno;
A gente vem perdida e trabalhada.
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra que deseja.

Os Lusíadas de Luís de Camões - Dedicatória

D. Sebastião, pintura de Cristovão de Morais, 1572

Canto primeiro

15.
E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares
De África as terras e do Oriente os mares.

18.
Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam;
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.

Os Lusíadas de Luís de Camões - Invocação

"A Tágide", escultura de Lagoa Henriques, em homenagem ao
Tejo e a Camões, situada no Montijo, Praça da República,
e inaugurada em 25 de Abril de 2004

Canto Primeiro

4.
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre, em verso humilde, celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

Os Lusíadas de Luís de Camões - Proposição

Vista de Lisboa numa iluminura do séc. XVI


Canto primeiro

1.
As Armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.

3.
Cessem do sábio Grego e Triano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A Água e Os Lusíadas

Apresentação do Trabalho a realizar no Primeiro Período:

A criação deste blog baseia-se na realização de vários trabalhos com a simbologia dos quatro elementos, e com a matéria que decorre no momento da realização do trabalho.

Neste primeiro trabalho, e como no presente momento analisamos, na disciplina de Português, a epopeia de Luís de Camões e o elemento que mais identifiquei com a obra foi a Água, será este mesmo elemento que irei salientar.
Trabalhando neste sentido vou colocando análises pessoais desta e de outras obras onde encontro a simbologia do elemento em estudo.